DAS VIRTUDES DO PETRÓLEO SOBRE O SANGUE

Oh vós, que vos fizeram sem-abrigo –
a vossa falta de teto estendeu-se pelos países,
sem um cêntimo
e em desespero,
enquanto o esquecimento se desvela entre as vossas costelas.

O teu sangue mudo não vai falar mais alto
enquanto te orgulhas na morte
enquanto continuas a anunciar – em segredo – que guardaste a alma
aos que não a compreendem.

Perderes a alma vai custar tempo,
mais do que é preciso para consolar o medo
nos teus olhos, que têm jorrado petróleo.

Um líder disse:
quem possuir petróleo terá as necessidades satisfeitas a partir dos seus derivados,
o que é de longe preferível a quem ilumina os olhos
e volta o seu coração a um deus.

Não tens que baste
para te serenar nas tribulações que virão
a torneira de sangue não é tua –
para gastar nos valores perdidos
nem tens que chegue para ficar
com uma taxa sobre a tua alma exausta.
Não tens o suficiente que te faça suportar um dia de exílio.

Agora tremes –
por isso pega no que há de sangue teu
e enche a barriga do exílio –
para reunires os supervisores do petróleo
e asfixiar as suas intenções de arrancar a tua alma.
Das águas do rio pede perdão –
e desculpa-te a bom som, enquanto o teu sangue se esvai nelas.

Através do petróleo – resistes!
Enquanto desapertas aqueles sutiãs
e saboreias lentamente as cerejas e tudo –
e desfrutas da humidade entre as coxas –
que todo o teu prazer seja abençoado.

Que mais –
quando todos os hereges pregarem o machado no teu ombro?
E tem-se dito que apostaste sangue do desejo
e que encheste as tabernas de riso maníaco –
para aproveitar um copo de borla.

De borla –
palavras abortadas,
uma onça de tabaco usada
e uma caixa – onde a tua mãe, certa vez, prendeu o teu grito –
para que o rio te cuspa para a orla de um medo que não conheces.
E aí, o trovão assegura-te que ele insemina as nuvens –
e cria chuva que não conseguirá ainda lavar a vergonha do medo de um rio a desaguar
nos braços da derrota.

Bolhas negras de petróleo –
circulam nas tuas células,
curam o que a náusea
não vomitou.

O petróleo é inofensivo,
exceto pelo rasto de pobreza que deixa para trás
naquele dia, quando as caras dos que descobrem outro poço enegrecem*,
quando a vida incendeia o teu coração para ressuscitar a tua alma em petróleo
para consumo de todos.
Isso é a promessa do petróleo, uma promessa verdadeira**.

Fim…


* Alusão ao Corão 3:106.
** “É a promessa de…” é uma expressão alusiva ao Corão 10:4; 18:98. Nos textos, Deus começa por questionar, depois declara as recompensas e no fim é usada esta expressão com vista ao acesso ao céu. No poema, ao petróleo.

Ashraf Fayadh (Instructions Within, The Operating System, Brooklyn, 2008)
Translation José Pinto

English version Mona Zaki

Publicado Revista Palavra Comum, Galiza, 2016

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