MELANCOLIA FEITA DE MASSA

Partes de ti amontoam-se uma na outra – mistura do teu sangue,
suor, sobras e despejos dos teus olhos.
Despejos dos teus olhos.
O nó da tua língua a meio do oceano
e quando a esfera solar gira
numa órbita pré-concebida –
complicações!

O que a calçada nunca mencionou
é que costumavas pisá-la
e presentear os teus sapatos no concreto,
os teus pés na sola dos sapatos
ou as pernas no chão da tua miséria.
Sintonizas os tons da tua mente para o prazer tolo,
enterras o esqueleto – era melhor não resistires.
Sobes para a ardósia que dizes ser branca por teres a mãos cheia de farinha –
e fermentas.
Inchas e arquejas a tristeza como o pão quente
e secas.
Procuras a tua água
entre a delicadeza e a dureza
e uma pausa.
E a tua testa cora,
também como o pão!

És posto
na memória caótica
da Terra, do seu centro,
da Tábua Preservada* carregada nos teus ombros

Ganhas bolor, também como o pão!

Em vão, resistes à apatia do corpo sobre a ardósia esbranquiçada,
na tua cama,
nos passeios,
nas superfícies refletoras e refletidas
e superfícies que absorvem a luz.
O teu corpo esquece sempre que é uma complexa amálgama,
que tens apenas uma perna.
Que pareces um vadio,
cujas feições sobressaem entre os que trilham outros caminhos.
Ele não pode dominá-los nem falar a sua língua;
ele não tem direito a caminhar
ou tropeçar ou sequer chorar.
Ele não tem direito a abrir a janela da alma,
renovar o ar, os escombros e as lágrimas.
Também tu esqueces que tu és
como o pão!

Esqueces como a tua alma foi misturada
à nascença, desde o dia em que rasgaram a tua placenta,
misturaram a tua alma
com roupas que tapam os teus genitais
e revelam o que deles se pode ver. De ti
e das mulheres que cresceram habituadas a que lhes fossem arrancados os colares
e pendurados retratos nas paredes.
Dos rapazes que treinaram para desenhar nas paredes
e lápides e carros em sucatas
e marchar em teu nome, também,
como o pão!
A tua alma fundiu-se:
homogeneizada, fermentada, amassada, cozida
e vendida nas lojas que violaram os códigos de saúde,
falsificada – e usada para propósitos ilegais,
eleita – e comida
como o pão.

__
* al-Lauh al-Mahfuz significa Tábua Preservada, onde Deus escreveu tudo o que aconteceu até ao momento presente e tudo o que acontecerá até ao Dia do Julgamento

Ashraf Fayadh (Instructions Within, The Operating System, Brooklyn, 2008)
Translation José Pinto
English version Tariq al Haydar

Publicado Revista Palavra Comum, Galiza, 2016

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.