HUMANOS

Já não trabalho há um par de anos como psicólogo. E muito menos sou poeta, já que não tenho apetência para carreiras, na proporção semelhante do Trump para a diplomacia. ‘Carreiras’, na minha terra natal, são sinónimo de ‘autocarros’ e ‘camionetas’. E para estas sim, posso assegurar-vos que nasci para entrar nelas, sentar-me o mais atrás possível, encontrar a posição certa para poder esticar as pernas quando me apetecer e ver a vida a passar rápida pelo vidro, nas linhas da estrada. A adrenalina de não saber o que vai acontecer quando voltar a pôr o pé em terra. Gostamos demasiado disto, de olhar o mundo à nossa frente como se estivéssemos num jardim zoológico a apreciar os bichos, com uma grade metálica entre nós e eles. E, sem perguntar primeiro – regra essencial da comunicação humana -, construímos uma perceção dos outros que nos enjaula no casulo das nossas razões, influenciadas na maioria das vezes por motivações egoístas que vão do medo ao amor, mais do que pelo conhecimento concreto que temos desta pessoa e daquela, desta cultura e daqueloutra. Para dar seguimento a este texto, para tentar dizer-vos qualquer coisa que sirva eventualmente a uma vida mais desperta, vou retomar, ao som de uma banda de música sariana, com a palavra ‘medo’ e não com a palavra ‘amor’. Do amor, questiono-me sinceramente se alguém saberá falar dele. Desculpem-me se vos pareço ignorante nesta matéria. Eu sei que devia ver mais além, afinal convidaram-me como poeta. E como psicólogo! Talvez seja do meu estado de espírito hoje. Talvez amanhã eu esteja com outro humor. Se assim for, encontra-mo-nos aqui à mesma hora e contar-vos-ei o que é o amor com precisão, além da amizade que escasseia, além das relações íntimas que, para serem duradouras, dependem mais da comunicação sincera do que da sexualidade própria de cada um. Mas do medo sei, aqui e agora. Sabemos todos falar do medo. Do medo da morte não tanto, mas das finas ramificações que dele nascem no nosso ventre e crescem para os nossos pés, para o nosso ventre, para os nossos olhos, para a nossa boca, com espinhos de acácia – sabemos bem. Do medo que dá a alguns ver as mulheres assumir lideranças no dia a dia, especialmente ao Putin. Do medo que dá ver um sem abrigo na rua a pedir-nos uma moeda e que nos faz trabalhar cada vez mais, para nos protegermos melhor atrás da conta bancária. Um dia serei chefe de uma empresa e terei o direito, porque toda a gente se calou, de não olhar a meios. Não para explorar, apenas para fazerem o que eu quero. Serei soberano sem saber bem porquê e vou mandar os trabalhadores darem dez horas ou mais, pagando-lhes o salário equivalente a oito horas de trabalho, contratando inclusive trabalhadores a mais, para pagar menos por cabeça. Não serei culpado se eles não conseguirem comprar o medicamento que iria curar todos os males. A culpa é da máquina invisível que se eleva sobre as nossas cabeças e ganhou forma por si mesma, jamais por ação de quem é responsável por decidir os destinos de sete biliões de pessoas. Pergunto-me se alguém realmente decide. Mas depois ouço histórias de percursos de vida únicos. Vejo a individualidade em cada um desses relatos… Não temos medo do diferente. Temos medo da liberdade individual. De quem faz o que realmente quer fazer. De quem tem ideias próprias. Casos destes confundem, indisciplinam e confrontam a massa que fala em nome de Deus, da televisão, dos jornais, do marketing e da direção. Quando o que fazem não é mais do que repetir. Não criam. Reproduzem. Não perguntam ‘Porquê?’. Imitam. Quem atirou a primeira pedra? Podíamos reunir meia dúzia de hackers e deitar isto abaixo. Podias ir para o meio da floresta ler um livro e mandá-los foder! Ou podias simplesmente sorrir. Dar um abraço. ‘Está tudo bem’. Mas nesse dia estavas a usar phones e ninguém conseguiu conversar contigo. Ninguém mais te viu. Subiste os degraus da carreira? Foste em busca de outro sol? As minhas palavras são imperfeitas e as palavras nunca bastam. Têm a duração e a nitidez de um pôr do sol. Por isso vamos beber uma Strela fresquinha a seguir. Façamos um brinde ao que resta dos dias e aos dias que restam. À nossa própria história.

Lido na apresentação de Human (Yann Arthus-Bertrand, 2015), Camões, Cabo Verde

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