TEMPO DA TERRA

Fumaste o teu primeiro charro comigo,
eu falava-te das propriedades relaxantes da matéria.
Aí habitava a matéria-prima de tudo, onde
a noite desceu sobre a floresta sobre nós,
duas crianças entre escarpas áridas a verter,
a calcar a terra a velar o ruído primordial.
Perguntaste-me se os grilos não se cansam de
cantar toda a noite. Rimos a bom som e descobrimos que
o céu tem estado escondido no solo.
Como as redes de pesca presas ao submundo marítimo.
Fomos juntos.

Sem eletricidade somos nós a noite.
Ouvimos a Mayra Andrade ao longe,
a lua cheia por cima do mundo,
eu disse-te que as pessoas que pagaram o
bilhete ficaram de costas para o clarão lunar,
chamaste-me romântico e sorriste.
Cansámo-nos e dançámos tolos.
Achámo-nos entre poemas entre palavras entre signos.
Diz-me: é previsível o trajeto de uma pedra rolante?
E de duas depois de colidir?
A partir deste verso falarei enfim de amor.

Fiquei preso ao álbum das polaroides. A corda aperta.
Demos uma festa! Como se fosse ficar mais perto de amar
como se amar seja deixares que te olhem nos olhos sem tempo.
Sem falar. Sem mexer um músculo.
Ouvir a respiração apenas. Inquieta-te?
Então foge, porque a seguir é ilusão.
Demasiado preguiçoso.
Ou medo demasiado de não acertar.
Só sei não acertar e faço-o com precisão.
Vivo para me vingar desde que cheguei,
mas acerto em todos menos no alvo.

O meu coração secou numa festa, em que
o mundo me convidou para dançar,
batida a batida a náusea destilou febre e
vomitei sem fazer barulho. Na manhã seguinte
pus os óculos de sol novos: renasci.
Fiz oitenta e nove anos há duas semanas.
Nós durámos algumas horas. Lembras-te?
Liguei-te no concerto dos Explosions in the sky.
Quis que ouvisses a ‘your hand in mine’.
Disseste-me que havia demasiada interferência do mundo e
não percebeste nada. Esperaste que eu chegasse
a casa no fundo da madrugada e amanhecemos.

Agora vivo para sobreviver.
A taxa de sobrevivência cai.
Decai até zero.
Publicar fotografias com crianças africanas para
aliviar a neurose de que sou o responsável pelo
impercetível processo de sedimentação ou
entupimento da vida toda?
Ir ao grogue a vinte escudos na vendedora da Praça?
Vejo-os todos os dias a falar para
varandas sem gente dentro.
A senhora deve dormir de dia.

Eu? Eu falo para mim sem eu estar.
Tu também, mas concordámos não falar disso.
Amanhã esqueceremos. Estás aí? Atrás da porta?
Vem. O mundo é enorme. E o teu lugar está garantido porque
quando morreres o tempo vai parar. Por ti. Só por ti.
Quando mais precisaram de mim não estive por falta de habilidade.
Achava que sim, mas tive uma
arritmia a um milésimo de segundo de abrir o coração.
Há muito barulho na cave. E sempre o esforço para sair.
Partir? Ficar? Se fossem embora eu ficaria radiante.
E cheio de medo. Sou sempre estrangeiro.
‘É melhor ser esbofeteado com a verdade do que
ser beijado com uma mentira’, diz um provérbio russo.
Não me falaste dele nem do que significa.
Continuas sem falar e convenço-me de que me resta a redenção.

Não compres um espelho para a casa ou
verás como te coseram a boca. E que nada se aproxime de ti,
debaixo da linha aguda das manhãs. Continuarão ao teu lado
por serem demasiado cuidadosos
por ilusão
por fatalidade.
A desilusão? Perder nuvens pelo caminho,
ver o sol uma vez por festa,
o traço fino a deslizar do céu ao nada,
as paredes concêntricas de que foges.
Que não te reste fechar a persiana sem fresta.
Precisamos da ilusão a três centímetros de cortar a meta.

Dizer a verdade é apocalítico.
Há mundo novo a suceder?
‘Mundo novo’ é Mindelo, disse um acidental mindelense.
Vem para cá. Tens o estômago farto da verdade nas solas dos europeus?
Como a pedra no sapato, a ferida de canela, a caspa nos colarinhos de Bruxelas. ‘Transmitir os
valores da Europa ao mundo’!
Como será receber o mundo em território europeu?
Devia ter tirado a fotografia com os embaixadores.
Fiquei sem provas sem cara. Ainda me aceitam?
A partir de hoje publico todos os dias na minha
página de facebook para que acreditem.
Ei, não me viste na televisão este natal?

É isso: pensar e construir uma história,
treinar o discurso até parecer nosso.
Que mais importa?
Escolher as palavras certas e acreditar nelas como
os que vão à igreja aos domingos.
É preciso acentuar as que dão prestígio!
Terei então confiança para entrar na conversa.
Uma palavra em falso e caio no vazio, por isso seduzo.
E se não atingir o objetivo digo o que vier à cabeça
como se fosse a última grande verdade de
um tempo sem a medida exata da constância.
Depois é só apontar aos pontos fracos.
Estar pronto para premir o gatilho.
O importante é controlar!
Sou demasiado benévolo para o mundo.
As pessoas são as verdadeiras culpadas por
todo o mal que causei e que possa vir a causar.
Vítima simples que não sabe
de que alambique verteu este sangue.

Ao escorrer na cara o sangue faz cócegas.
E às vezes só nos apercebemos quando tocamos.
Pode ser a ferida viva.
Pode ser o ressalto do crime.
Podes ser tu a confundires-te comigo.

Publicado Enfermaria 6, Portugal, 2017

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