TELEMARCHAY ECLIPSES

perder
perder
para encontrar
o que foi tirado da boca do jaguar
perder perder tudo
e quando perderes tudo
hás de perder isso também

onde antes não vias nada
há enquanto uma pedra sobre outra
onde antes não ouvias nada há um ritmo de varas de urze
nas tardes lá fora a golpear a terra golpeada

os cadáveres imensamente mortos
que deixaste no caminho
dizem não-jaguar não-caverna não-vasilha

só manto
e piedade pelos feijões e as moscas

isto é tudo o que ignoravas
por quereres ganhar o céu

guitarrista diz não-lasso não-água não-templo
só fardos

encerrando peixes
aprisionados entre os dentes de outros peixes

parece mentira terem vivido cem séculos nestas serras
domesticados pelos animais
que não souberam domesticar o nosso apetite
e que logo domesticámos

com as quatro ervas que nos abrigaram
e que terminaram também queimadas
em fogueiras de prata

telarmachay diz não-crânio não-extremidade não-crânio
só mulher

sentada entre montanhas
como uma navalha afiada de um só gume
acariciando o rosto do trono
embalando as cataratas

as marés do regozijo e da pena
não têm domínio sobre esta carnificina

dá-me tudo
a peste a tarde a duração dos quadros
os despojos de ouro e prata
dá-me os metais
dá-me o que te falta

carva diz não-cabeças cupisniques
a degolar-se
(viras essa expressão nalgum outro rosto?

é assim
nunca o saberás)

diz-me nada

este interregno esta paz
não durarão
degolou-se a cabeça com uma navalha de chifre de taruca
pensou no manto debaixo dos seus pés
vermelho negro ocre vermelho
pelicano serpente moscas
subsolos de huántar

o sangue
a flora exausta

dá-me tudo
é indispensável crer em nada
fardos

e de passagem
de que lado estavam as paredes
zigzagueando de rosa em rosa

à procura suponho
de algo dentro algo fora?

pensei que aqui havia uma ausência uma perda
enganei-me
ao ver o que se vê quando não se quer ver
o deserto o basto a palavra

e assim não ver a pedra sobre a pedra

diz-me nada
essa é a única condição para eu ficar com tudo

nunca acreditei que fosse verdade
que não podiam caminhar
que não podiam agitar-se
que não podiam mudar de posição

nem recostar-se de lado nem boca abaixo nem sobre as suas costas

até que me passou pela cabeça
que também me aconteceu a mim

a extraordinária beleza do manto
me fez vulnerável
à vida de outros

com cáries mais radicais

irradiando do fundo de abismos atravessados
dentes de altura

caranguejos atados a cordas precárias penduradas no céu
a anunciar um interlúdio imuno deficiente
(estas são as mortais marionetas de cor
cinzento sobre cinzento)

a propósito
perco o tempo

toda esta gente que caminha até ao mar
onde vai?
que procuram deixar além da vida?

o lugar é agora
uma torre de cidades arruinadas
os túmulos abertos dessacralizados
contêm os ossos de astrónomos sexuais
que acreditaram ver órbitas exatas
à volta de corpos
desnecessários

os tradutores foram sepultados de cabeça
retirados do resto

as teorias são
prisões de segurança máxima
(algo do género disse Quijano ou assim que as ideias
são prisões de longa duração)
e Flores Galindo:
‘as palavras seguem um itinerário paralelo às mortes’

e por isso há tantas palavras
em forma de garra em forma de molar
de vagina e de gengiva

e por isso esta linguagem
aperfeiçoada pelos nossos terrores
espiã das nossas mortes
conselheira de chagas
esboça este rictus final e funerário

quirihuac diz não-relâmpago não-deserto não-morfema

só o ruído dos terraços marinhos
a acomodar-se
como serpentes de escamas obscuras e raspadas
ejaculando um sémen negro e glacial
deslumbrante

o fim do que acaba por terminar
agrega-se como um segmento mais
um hino uma denúncia
uma bênção de arte

os venenos começaram por ser abstrações
e tornaram-se
relatos que tardaram a fazer efeito
mordidas no vento salgado
foi o inverno outra vez
e nós nele

disse sémen negro atrás e glacial
pensava numa noite em chimbote
no nevoeiro a sair do mar

nas esculturas de pedra nos caninos verticais

a sair do mar
e
ainda
nas reconversões das nossas melhores noites
um desenho de fundo
abre caminho
entre as camadas de azeite e alcatrão e trementina
à sombra do rio o carvalho é fonte

nazca diz não-macaco não-calendário não-linha
só tábua rachada

frente ao altar de pedra submerso entre neves perpétuas
fazem-se perguntas improváveis
pedem pela raposa para que interceda pelo lago

abrem suas almas ao huayco

tentei com as vendas
cobrir os olhos tapar
os ouvidos com algodão
enfronhar minhas mãos em luvas cheias
de mel de flor de laranjeira
meus dedos nos seios nasais até tocar a pituitária
forrar de azul a língua

tempo é o que compras com a visível ausência
dos olhos e os poços e as cimas

esse corpo é uma aspa sobre os telhados um gânglio
tomado
uma pele curtida pelas fogueiras das cavernas
ainda

um desenho na parede recorda-me
que também despertei nessa parcas obscuridades

minha mão amadureceu cedo
com os perfis de felinos desesperados
mas acabou entregue à violência


há algo inerentemente tóxico na cólera
(nesta cólera) talvez

seja a forma em que se move tão parecida
aos tombos rupestres
que faz com que seja impossível de domar de se parar sobre ela
nos seus lombos salgados
a falta de trégua
o dia da sede

nas noites lá fora
raqchi diz não-piada não-idade não-céu não-cascalho

com frequência
aprecio a qualidade deste silêncio
e das pedras que se agruparam à sua volta
para formar um templo

para formar uma fortaleza
um cemitério um estábulo um bordel
este silêncio suave como o excremento
mas insolente como uma rosa
arrojada

do outro lado do nevado estava a noite
(ainda há lugares a que não vou)

as trutas tristes da oroya
esgaravatadas da neve e o frio
ainda há lugares a que não vou

ódio
emanou destas procissões
mas também homens
mulheres a respirar na obscuridade
examinando ou pondo à prova
uma fé
tenaz como uma mirada posta na montanha

um sol vazio esconde-se na sua própria sombra

perder
perder
perder para encontrar
o que foi tirado da boca do jaguar

calar por aqueles
que não puderam falar
perder a vida perder a morte

Mario Montalbetti (Fin desierto y otros poemas, 1997. Incluído em Lejos de mí decirles, Poesía reunida, Ediciones Liliputienses, 2017)
Traducción José Pinto
Versión castellana Revista Tr3sreinos

Publicado Revista Tr3sreinos

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