ONDE VIVE BLIMUNDO

CONTEMPLADORA: Ouviste?
VIAJANTE: Ouvi o quê?
CONTEMPLADORA: Espera…
VIAJANTE: Espero?
CONTEMPLADORA: Pelo próximo.
VIAJANTE: Próximo?
CONTEMPLADORA: Sim.
VIAJANTE: Pelo próximo quê?
CONTEMPLADORA: Pelo próximo eco.
VIAJANTE: Eco?
CONTEMPLADORA: E-c-o. Eco.
VIAJANTE: Queres que eu espere por um eco?
CONTEMPLADORA: Não é um eco qualquer.
VIAJANTE: Então?
CONTEMPLADORA: É o eco dele.
VIAJANTE: O eco de quem?
CONTEMPLADORA: Espera.
VIAJANTE: Que seca.
CONTEMPLADORA: Só funciona se esperares.
VIAJANTE: Quanto tempo?
CONTEMPLADORA: O que for preciso.
VIAJANTE: E se demorar até amanhã?
CONTEMPLADORA: Esperas.
VIAJANTE: E se for daqui a trinta anos?
CONTEMPLADORA: Esperas.
VIAJANTE: Oh!
CONTEMPLADORA: Shhhh. Quanto menos barulho fizeres…
VIAJANTE: Agora também tenho de me calar?
CONTEMPLADORA: Não é bem calar, mas…
VIAJANTE: Mas nada!
CONTEMPLADORA: AI, QUE O VAIS ESPANTAR.
VIAJANTE: Só estamos aqui os dois.
CONTEMPLADORA: Não estamos só os dois…
VIAJANTE: Não vejo aqui mais ninguém.
CONTEMPLADORA: É que não se sabe dele há muito muito tempo.
VIAJANTE: Estás a inventar.
CONTEMPLADORA: Não me digas que nunca te falaram de Blimundo.
VIAJANTE: Qual Blimundo?
CONTEMPLADORA: O boi mais laaaargo do mundo.
VIAJANTE: E que tem de especial, além de ser “o boi mais laaaargo do mundo”?
CONTEMPLADORA: Brincava com as borboletas que via.
VIAJANTE: Um boi que brincava com borboletas?
CONTEMPLADORA: E levava música dentro dele.
VIAJANTE: Um boi que brincava com borboletas e levava música dentro dele…
CONTEMPLADORA: Ah! Assim, não ouvirás.
VIAJANTE: Assim como?
CONTEMPLADORA: Tens de deixar-te levar.
VIAJANTE: Deixar-me levar?
CONTEMPLADORA: Sim, pela canção que vive dentro.
VIAJANTE: Pela canção? Dentro da minha cabeça!?
CONTEMPLADORA: Sim. Parecida com uma voz…
VIAJANTE: Lá estás tu a inventar outra vez.
CONTEMPLADORA: Uma canção que consegues escutar no silêncio.
VIAJANTE: Mais alguma coisa especial sobre Blimundo?
CONTEMPLADORA: Faz bulir o mundo.
VIAJANTE: Bulir?
CONTEMPLADORA: Sim, movimenta as coisas.
VIAJANTE: Mas o planeta Terra já roda sozinho.
CONTEMPLADORA: Blimundo faz o mundo avançar.
VIAJANTE: Mas o planeta Terra anda à volta do Sol.
CONTEMPLADORA: É um boi que ama a liberdade.
VIAJANTE: Que queres dizer com isso?
CONTEMPLADORA: Fugiu do palácio onde o mantiveram a trabalhar como escravo. Andou às voltas às voltas às voltas no trapiche, dia após dia após dia…
VIAJANTE: E depois?
CONTEMPLADORA: Ele via mulheres usarem roupas mais bonitas.
VIAJANTE: Só isso?
CONTEMPLADORA: Via reis enriquecerem à sua custa, soldados com fardas mais reluzentes e o palácio a INCHAR de luxo.
VIAJANTE: E por isso fugiu?
CONTEMPLADORA: Razões que bastam a quem procura grandes causas.
VIAJANTE: Cansou-se?
CONTEMPLADORA: Cansou-se.
VIAJANTE: Fugiu pra onde?
CONTEMPLADORA: Bem longe!
VIAJANTE: E o rei?
CONTEMPLADORA: O rei foi atrás dele.
VIAJANTE: Como se sabe que é Blimundo e não outro boi?
CONTEMPLADORA: Se for Blimundo, saberás logo que é ele.
VIAJANTE: Porquê?
CONTEMPLADORA: Porque a cada mugido que dá, a terra estremece.
VIAJANTE: Uau…
CONTEMPLADORA: Como estremeceram exércitos que foram atrás dele.
VIAJANTE: Não foi o rei atrás dele?
CONTEMPLADORA: Já viste um rei ter coragem pra lutar?
VIAJANTE: Nunca. Como comanda um rei, se lhe falta coragem?
CONTEMPLADORA: Só uma vez houve em que capturaram Blimundo.
VIAJANTE: Devem ter suado.
CONTEMPLADORA: Atraiçoaram-no.
VIAJANTE: Ele deixou-se atraiçoar?
CONTEMPLADORA: Ordenaram a um rapazinho que fosse a cantar e a tocar violino pelos campos até encontrar o boi.
VIAJANTE: Que estaria a brincar com borboletas.
CONTEMPLADORA(começa a cantar) Tlim, tlim…
Tlim, tlim…
Tlim, tlim…
Tlim, tlim…
Oh Blimundo
Senhor rei mandam buscar
Pra bem casa com na codezinha
Glim Glim na nha cavaquinho
Clo clop na nha pretem
Glim Glim na nha cavaquinho
Glu glu na nha bli d’agua (termina de cantar)
Guiado pelo eco dos mugidos, mais próximo e MAIS PRÓXIMO, deu-se conta, de repente, o rapaz, que Blimundo o havia posto em cima do seu pescoço.
VIAJANTE: Não foi prudente.
CONTEMPLADORA: Foi apaixonado.
VIAJANTE: Levava música dentro.
CONTEMPLADORA: Pediu ao rapaz que tocasse pertinho do ouvido.
VIAJANTE: E o rapaz encaminhou-os até ao palácio.
CONTEMPLADORA: Enquanto a música em cima do boi soava mais bela e o tocador só pensava num outro segredo.
VIAJANTE: Qual segredo?
CONTEMPLADORA: Blimundo estava apaixonado pela “codêzinha”, a Vaquinha de Praia.
VIAJANTE: Gostaria de saber onde vive Blimundo.
CONTEMPLADORA: Hum…
VIAJANTE: Não me vais dizer que é no silêncio.
CONTEMPLADORA: Temos ouvido ecos longínquos. É preciso prestar atenção. E levar música dentro de si. Uma sensibilidade apurada.
VIAJANTE: Sensibilidade a quê?
CONTEMPLADORA: Ao invisível.
VIAJANTE: Ao invisível?
CONTEMPLADORA: Por baixo da pele.
VIAJANTE: Os músculos?
Os ossos?
CONTEMPLADORA: Posso contar-te o resto da história?
A Vaquinha por quem Blimundo estava apaixonado havia sido adotada pelos reis, pois a rainha não conseguia engravidar. Num dos passeios pelas propriedades reais, ela viu uma bezerra perfeita e logo quis levá-la consigo. Quando chegou à beira do rei, expressou o seu desejo de ficar com a bezerra, como se uma filha sua fosse. Então, o rei pediu a uma fada do palácio que a transformasse numa menina e, da noite para o dia, a Vaquinha de Praia era uma elegante princesa.
VIAJANTE: Blimundo foi ter com a “codêzinha”?
CONTEMPLADORA: O rei havia prometido a Vaquinha em casamento. Levando consigo o tocador de violino, quando chegaram ao palácio, o rei apressou-se a conduzir o boi ao barbeiro, para que se preparasse para o encontro com a amada. No momento em que ia começar a aparar os pelos de Blimundo, depois de o ensaboar, o barbeiro deu-lhe um golpe de navalha no pescoço, que manchou a toalha reluzente. O boi mais largo do mundo começou a dar coices aqui, dar coices ali, dar coices acolá, de tal maneira que o rei nunca mais foi visto.
VIAJANTE: O que terá levado ao ódio do rei? Havia bois para o lugar do fugitivo?
CONTEMPLADORA: Blimundo fugiu e inspirou outros bois a serem livres. A notícia correu o reino à velocidade da luz. Blimundo havia feito florescer uma esperança antiga.
VIAJANTE: Uma ameaça à ordem do rei.
CONTEMPLADORA: Ia jurar que ouvi o eco.
VIAJANTE: Às vezes ouvimos o eco de uma lembrança como se estivesse realmente a acontecer. Especialmente se há vontade de que aconteça. Quando se sente saudades.
(Silêncio) 
VIAJANTE: Se cantarmos no silêncio, Blimundo aproxima-se?
CONTEMPLADORA: Ah, já entendeste?
VIAJANTE: Acho que estou a começar.
E se pintarmos o crepúsculo sobre rochas e vales?
CONTEMPLADORA: Funciona, se tiveres os olhos fechados.
VIAJANTE: Como é que pinto de olhos fechados?
CONTEMPLADORA: Do mesmo modo que se canta no silêncio.
VIAJANTE: Não te esqueças de pintar borboletas a voar pelos vales das ilhas.
CONTEMPLADORA: Um detalhe de extrema importância.
VIAJANTE: Vou fechar os olhos.
CONTEMPLADORA: Tenta.
VIAJANTE: E se aparecerem rãs a saltar de um lado pro outro?
CONTEMPLADORA: Só saberás depois de tentar.
VIAJANTE: E se aparecerem dinossauros gigantes?
CONTEMPLADORA: Tens de tentar.
VIAJANTE: E se aparecerem monstros selvagens?

(Silêncio)

VIAJANTE: Vou fechar os olhos.
CONTEMPLADORA: Que corajoso.

(silêncio durante doze segundos)

VIAJANTE: Ouves o eco?

Dramaturgia e texto José Pinto, a partir do conto de Blimundo, da tradição oral cabo-verdiana
Interpretação Cátia Terrinca e Vicente Wallenstein
Sonoplastia Diogo Rodrigues

CONTEMPLADOR: Bô uvi?
VIAJANTE: M uvi o kê?
CONTEMPLADOR: Esperá…
VIAJANTE: Esperá?
CONTEMPLADOR: Pa próxim.
VIAJANTE: Próxim?
CONTEMPLADOR: Sim.
VIAJANTE: P próxim kê?
CONTEMPLADOR: Pa próxim eco.
VIAJANTE: Eco?
CONTEMPLADOR: E-c-o. Eco.
VIAJANTE: Bô krê k m sperá pé um eco?
CONTEMPLADOR: Ka ê um eco qualquer.
VIAJANTE: Entom?
CONTEMPLADOR: É eco del.
VIAJANTE: Eco de kem?
CONTEMPLADOR: Esperá.
VIAJANTE: Ke chatice ome.
CONTEMPLADOR: Só el ta funcioná se bô esperá.
VIAJANTE: Tont temp?
CONTEMPLADOR: Kel ke for precis.
VIAJANTE: E se demorá té manhã?
CONTEMPLADOR: Bo ta esperá.
VIAJANTE: E se for daki a trint on?
CONTEMPLADOR: Bo ta esperá.
VIAJANTE: Oh!
CONTEMPLADOR: Shhhh. Kuanto menos barulho bo fazê…
VIAJANTE: Gora também m tem k calá?
CONTEMPLADOR: Ka ê bem calá, ma…
VIAJANTE: Má nada!
CONTEMPLADOR: AI, BO TI TA BEM ESPANTAL.
VIAJANTE: Só nôj dôj e´k t li.
CONTEMPLADOR: Nô ka ta sô nôs dôs…
VIAJANTE: Mi ká tite oiá máj ninguém.
CONTEMPLADOR: Ê que gente ka sabê del tem tcheu temp.
VIAJANTE: Bô tite inventá.
CONTEMPLADOR: Ka bo dzem k nunca ej falób de Blimundo.
VIAJANTE: Kual Blimundo?
CONTEMPLADOR: Kel boi más lóoooorg de mund.
VIAJANTE: E o ke é k el tem de especial, além de ser “kel boi más lóoooorg de mund”?
CONTEMPLADOR: El tava brincá k borboletas kel tava oiá.
VIAJANTE: Um boi ke tava brincá má borboleta?
CONTEMPLADOR: E el tava levá mússca dent del.
VIAJANTE: Um boi ke tava brincá má borboleta e tava levá música dentr del…
CONTEMPLADOR: Ah! Essim bô ka ta uvi.
VIAJANTE: Essim manera?
CONTEMPLADOR: Bo tem k tchá ser levód.
VIAJANTE: Txa ser levod?
CONTEMPLADOR: Sim, pa kel canção que tem dent de bô.
VIAJANTE: Pe um canção? Dentr de nhe kabeça!?
CONTEMPLADOR: Sim. Parcid kum voz…
VIAJANTE: Já bô tite inventá ôte vej.
CONTEMPLADOR: Um canção k bo ta consigui uvi na silêncie.
VIAJANTE: Máj algum koza especial sobre Blimundo?
CONTEMPLADOR: El ta faze mund bli.
VIAJANTE: Bli?
CONTEMPLADOR: Sim, el ta muvimentá tud kosa.
VIAJANTE: Má planeta Terra já te rodá el só.
CONTEMPLADOR: Blimundo ta fazê mundo avançá.
VIAJANTE: Má planeta Terra te andá a volta de Sol.
CONTEMPLADOR: É um boi k ta amá liberdad.
VIAJANTE: Ke é k bô krê dzê kiss?
CONTEMPLADOR: El fgí dum palásie ondê kej tinha el t trabalha komo eskrave. El rediá, rediá, rediá ne volta dum trapitxe, dia após dia…
VIAJANTE: E depôj?
CONTEMPLADOR: E el tava oiá só m´ier t usá ropá maj bnit.
VIAJANTE: Só iss?
CONTEMPLADOR: El tava oiá reis t inrikêsê à sê kusta, soldads k fardas maj brilhant e kel palásie t INTXÁ d lux.
VIAJANTE: E por causa diss el fgi?
CONTEMPLADOR: Razões k basta p kem e´k t procurá grendes kausas.
VIAJANTE: El kansá?
CONTEMPLADOR: El kansá.
VIAJANTE: Pé dond ê kel fgi?
CONTEMPLADOR: Bem longe!
VIAJANTE: E kel rei?
CONTEMPLADOR: Kel rei bé tréj del.
VIAJANTE: Manera ke bô t sabê ke ê Blimundo e não ôte boi?
CONTEMPLADOR: Se for Blimund, bô t sebê log kê el.
VIAJANTE: Mod kê?
CONTEMPLADOR: Porkê a kada mugid kel dá, terra estrmesê.
VIAJANTE: Uau…
CONTEMPLADOR: Moda e´k estrmesê kej exérsit e´k bai trás del.
VIAJANTE: En foi kel rei k bá trás del?
CONTEMPLADOR: Já bô oiá um rei t tem koragem p lutá?
VIAJANTE: Nunka. Manera k um rei te komandá, se te faltal koragem?
CONTEMPLADOR: Sô um vej e´k ej panhá Blimund.
VIAJANTE: Ej deve ter suod.
CONTEMPLADOR: El traissoél.
VIAJANTE: El txá ser traissuod?
CONTEMPLADOR: Ej ordená um rapazim pe bai t kantá i t toká kavakim p kej rbera até inkontra kel boi.
VIAJANTE: Ke devia estod t brinká k borboleta.
CONTEMPLADOR: (começa a cantar) Tlim, tlim… Tlim, tlim… Tlim, tlim… Tlim, tlim… Oh Blimundo Senhor rei mandam bem bskob Pra bem casá ma codezinha Dlim Dlim na nha cavakim Crop crop na nha pretem Dlim Dlim na nha cavakim Glutxe glutxe na nha bli d’agua (termina de cantar)
Guiod p eco de kej mugid, mej pert, MEJ PERT, el tma fê, d´repent k Blimund tinha el pust n k´txasim.
VIAJANTE: En foi prudent.
CONTEMPLADOR: Foi apaixonod.
VIAJANTE: El tava levá música dentr.
CONTEMPLADOR: El pdi kel repazim p toká pirtim d´uvid.
VIAJANTE: E kel rapaz encaminhaj até kel paloce.
CONTEMPLADOR: Inkuant musika d´sima d kel boi tava fká maj bnit, kel tokador tava só pensá not segréd.
VIAJANTE: Kual segred?
CONTEMPLADOR: Blimund tava apaixonad p “kodêzinha”, Vekinha d´Praia.
VIAJANTE: M tava goxtá de sabê onde é k vivê Blimundo.
CONTEMPLADOR: Hum…
VIAJANTE: Ká bô dzem k é ne silence.
CONTEMPLADOR: No tem uvid ekos t bem d longe. E presise prestá tenson. E levá músska dent de bô. Um sensibilidad apuród.
VIAJANTE: Sensibilidad a kê?
CONTEMPLADOR: A invisível.
VIAJANTE: A invisível?
CONTEMPLADOR: Debóx de pêl.
VIAJANTE: Kej músculos?
Kej osse?
CONTEMPLADOR: Bo kre kabá d´uvir ess jtória?
Kel Vaquinha p kem Blimund tava apaixonod tinha sid adotod pe kej rei, pork kel rainha ene dava kunsgui engrevidá. Num d sij passei p propriedades reais, el oiá um bzérra perfeita e logo el krij levál ma el. Kond el txgá n beira d kel rei, el falal de sê dsej de fka k kel bzérra, moda sê filha. Enton, kel rei pdi um fada d sê palásie pe transformá kel bzérra num menininha i, d note p dia, kel Vakinha d´Praia era um elegante prinsesa.
VIAJANTE: Blimundo bá ter ke kel “codêzinha”?
CONTEMPLADOR: Kel rei tinha promitid kel Vaquinha em ksement. T levá kel tokador de violine ma el, kond ej txgá ne kel palásie, kel rei levá kel boi log p barber, pel prepará p inkontrá ma sê amada. N mument em kej tava t ba komessá t fazê barba de Blimund, txpuj de enseboel, kel barber del um golpe de navalha n pskose, ke mantxá kel a toalha relusent. Kel boi maj lorg d mundo kmessá t dá koss ei, t dá koss lá, t dá koss dalá, de tal manera ke kel rei nunca maj foi vist.
VIAJANTE: UKê k levá a ódio de kel rei? Tinha otxe bois pé substitui de kel fugitiv.
CONTEMPLADOR: Blimundo fgi e inspirá otxe boij a ser livre. Kel notísia espalha p kel reine n vlusidad d luz. Bimund fazê florexsê um esperansa antig.
VIAJANTE: Um ameaça à ordem de rei.
CONTEMPLADOR: M tava jurá kum uvi um eco.
VIAJANTE: Às vej nô te uvi eco dum lembrança moda s el tite kontsê realmente. Especialmente se nô tá k vontad del kontsê. Kuando bô te sinti sodad.
(Silênce)
VIAJANTE: Se nô kantá ne silence, Blimundo tá aproximá?
CONTEMPLADOR: Ah, já bô intendê?
VIAJANTE: M otxá k m tite komeça. E se nô pintá crepúsculo sobre rotxa e vales?
CONTEMPLADOR: El ta funcioná, se bo tiver oí ftchód.
VIAJANTE: Manera k m te pintá k oi fetxod?
CONTEMPLADOR: De mesma manera k bo ta cantá na silêncie.
VIAJANTE: M ka podê skecê de pintá borboletaj te voá pé vales de tud kej ilha.
CONTEMPLADOR: Um detalhe de extréma impurtânsia.
VIAJANTE: M tita bem fetxá oi.
CONTEMPLADOR: Tentá.
VIAJANTE: E se parcê uns rã te saltá dum lado pé ôte?
CONTEMPLADOR: Sô bo ta sabê dpôs k bô tentá.
VIAJANTE: E se parcê dinossauros gigantes?
CONTEMPLADOR: Bô tem k tentá.
VIAJANTE: E se parcê uns monstre selvagem?

(Silênce)

VIAJANTE: M tá fetxá oi.
CONTEMPLADOR: Ke corajosa.

(Silênce durant doz segundos)

CONTEMPLADOR: Bô uvi kel eco?

Dramaturgia e tradução José Pinto, a partir do conto de Blimundo, da tradição oral cabo-verdiana
Revisão Márcia Freitas
Interpretação José P. Bettencourt e Márcia Freitas
Sonoplastia Diogo Rodrigues

Estreia TRANSMISSÃO Ciclo de Teatro do Imaginário, Cabo Verde e Portugal, 2020
Publicado Revista Virada, EUA e Portugal, 2020

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