O ÚLTIMO DESCENDENTE DOS REFUGIADOS

Dás indigestão ao mundo. E outros problemas.
Não forces o chão a vomitar
e dele fica perto, bem próximo.
Uma fratura que não pode ser aberta,
um pedaço que fica sem resolução
ou adição aos outros números,
logo geras confusão nas estatísticas globais.

Ser refugiado é estar no fim da fila
para ter um pedaço de um país.
Ficar, fez o teu avô sem saber porquê.
E o pedaço és tu.
País: carta que pões no bolso junto com o dinheiro.
Dinheiro: pedaços de papel com fotografias de líderes.
Fotografias: substituem-te até voltares.
Voltar: criatura mitológica que existe nas histórias do teu avô.
Aqui termina a primeira lição.
Para que aprendas a segunda lição, que é “o que significas?”.

No Dia do Julgamento*, eles ficam nus,
enquanto nadas nos canos enferrujados do esgoto.
Descalço – pode ser saudável para os pés
mas não para a Terra.

Em tua honra montaremos tribunas e faremos conferências
e os jornais escreverão sobre ti de maneira apropriada.
Uma fórmula nova foi desenvolvida para eliminar a sujidade recalcitrante
e a metade do preço apenas.
Apressa-te a comprar** metade,
porque a escassez de água é grave.

Negociações sérias
decorrem para providenciar cinzas de borla para que não te engasgues,
sem afetar o direito das árvores viverem na Terra.
Aprende a evitar esgotar toda a tua dose de cinza de uma só vez.

Ensinaram-te a levantar a cabeça
para não veres a sujidade no chão.
Ensinaram-te que a tua mãe é a Terra.
E o teu pai?
Queres conhecê-lo para confirmar a tua linhagem.
Ensinaram-te que as lágrimas são um extravagante desperdício de água.
E água…já tu sabes!

Amanhã
será boa ideia livrar-mo-nos de ti,
porque a Terra seria mais bela sem ti.

As crianças são como pardais,
mas elas não fazem ninhos em árvores mortas.
E a agência das Nações Unidas não se responsabiliza em plantar árvores.

Usa-te como cartão de descontos,
pedaço de papel com um poema, pedaço de papel higiénico,
pedaço de papel para a tua mãe acender o fogão
e fazer pães.

Previsão do tempo:
o sol está de cama com febre.
Os ossos, vestidos de carne e pele.
A pele fica suja e emana um cheiro horrível.
A pele arde, afetada por forças sobrenaturais.
Toma-te como exemplo.

Não desistas da esperança.
Leva o coração do exílio, donde estás a fugir!
Isto é treino intensivo para viver no inferno
e nas condições mais cruéis.
Meu deus, é o inferno algures na Terra?

Os profetas reformaram-se
por isso não esperes que o teu venha por ti.
Por ti,
por ti os monitores trazem relatórios diários
e recebem os seus altos salários.
Quão importante é o dinheiro
para uma vida digna!

As almôndegas*** do Abu Said estão expostas a contaminação
e a farmácia anuncia que a campanha de vacinação está a acabar,
por isso não te preocupes que as tuas crianças fiquem contaminadas,
enquanto a farmácia ali estiver.

Reportagem em direto dos preparativos para o concurso de beleza.
Aquela miúda fica bem de biquíni,
a outra tem um rabo gordo.
Notícia de última hora: Aumento Súbito do Número de Mortos Devido ao Tabaco.
O sol ainda é uma fonte de luz
e as estrelas espreitam pra ti,
porque o telhado precisa de reparação.

Discussão na praça dos táxis:
“Não temos passageiros suficientes para partir”.
“Mas a minha mulher trabalha”.

“É a sua décima gravidez. Ainda não aprendeu nada? Há relatórios a alertar para o aumento da população. Acaso – é a palavra que procurei durante anos. Vivemos num mundo ao acaso.
Multiplicamo-nos e as nossas crianças permanecem nuas. Fontes de inspiração para realizadores de cinema ou para discussão à volta da mesa do G8. Somos pequenos, mas eles não vivem sem nós.
Por nós, edifícios caíram e estações de comboio floresceram. O ferro é certo que enferruja. Por nós, há imensas mensagens com fotografia. Somos atores e não nos pagam. O nosso papel é ficar tão nus como quando as nossas mães nos deram à luz, a Terra nos deu à luz, os noticiários nos deram à luz e os relatórios infindáveis e as terras à volta dos acampamentos e as chaves tem-nas o meu avô. Meu pobre avô, ele não sabia que as fechaduras foram mudadas. Avô, que as portas abertas com cartão digital te amaldiçoem e que o esgoto que passa ao lado da tua campa te amaldiçoe. Que o firmamento te amaldiçoe e não chova. Não, os teus ossos não crescem do solo, que é a razão pela qual não crescemos de novo.

‘vô, estarei por ti no Dia do Julgamento,
porque as minhas partes íntimas não são estranhas para a câmara.
Eles deixam filmar no Dia do Julgamento?

‘vô, ando nu todos os dias, sem julgamento, sem alguém triunfar,
porque fui deslocado em antecipação. Eu sou a experiência do inferno na Terra.
O inferno que foi preparado para os refugiados.

__
* A expressão, utilizada várias vezes na obra de Ashraf Fayadh, tem um sentido teológico, mas apela, ao mesmo tempo, ao dia do banimento, isto é ao dia em que os refugiados são banidos das suas terras e se veem obrigados, por força de condições externas cruéis, a ir para os acampamentos preparados para os receber, ditos “campos de refugiados”.
** Tradução para a língua portuguesa do verbo buy up, que remete à gíria financeira, sendo usado nos negócios, para designar a compra de tudo o que há em stock ou o máximo possível, especialmente quando o preço está mais baixo.
*** Almôndegas árabes ou falafel, na língua inglesa.

Ashraf Fayadh (Instructions Within, The Operating System, Brooklyn, 2008)
Translation José Pinto
English version Jonathan Wright

Publicado Revista Palavra Comum

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