NOME DE UM SONHO MASCULINO

Enquanto veneras a ansiedade com excelência –
não reparaste que as tuas artérias deixaram de levar a insónia aos olhos?
Não reparaste?
Que os corações dos que abandonaste nas calçadas da noite
se fenderam da tua visão tantas vezes?
Os ciclos da noite continuaram a trabalhar
até o amanhecer despontar na beira das nuvens
no teto da tua imaginação.
Não reparaste também –
como adoraste ler as artérias das mulheres
e dos corpos atirados para os telhados de memórias longínquas?

As tuas lágrimas embebidas no pântano da exegese*
e nem uma palavra foi lida
como tu
estas lágrimas esgotaram todas as línguas conhecidas da Terra
para um nome que define o teu conceito de Eu
o teu nome – como um tinteiro cheio de possibilidades
desafias todas as definições dos seus órgãos combinados.

Vem para onde o trovão te veja, para que o teu corpo esquelético se dissolva
e a tua alma ressuscite como nuvem e depois chova
derrame a tua vida por onde o teu nome nem sonho seja,
que não fosse enquanto és capaz de largar as definições
de ambíguos prazeres e noites embriagadas
e dos que clamam os nomes sagrados do amor.
Vem – a noite é longa para os amantes,
não muito para escrever sobre prazer
ou corpos saturados de odor a pêssegos
absortos nos prazeres proibidos da noite.
Vem – para onde a nuvem transforme a tua náusea
e tire a tua alma do exílio –
de um coração que declarou a ausência do amor
e das miragens da suposta terra natal onde pensas pertencer,
para todo o grito de coragem da terra.

Desde quando o vento respeita as leis do trânsito?
Desde quando?
Alguma vez parou no sinal vermelho?
Há quanto tempo o tentas parar,
podias juntar umas palavras
ou encontrar notícias sem ser para imprimir?

Os teus olhos irão confessar que a insónia
violou os segredos da noite
e a noite não calará muito mais tempo.
O teu coração é um ídolo para o qual as artérias se escaparam
e elas já não oferecem as tuas veias como sacrifício,
tributo ao trono dos deuses esplêndidos.

O teu nome não é nada para mim,
não me pode redimir dos pecados da seca
e não pode suplicar a noite para que o liberte da sua solidão
o teu nome é um número perdido –
um peso que te derreou as costas!


* Interpretação e comentário ou explicação do verdadeiro sentido de um texto, habitualmente conotado com os textos bíblicos.

Ashraf Fayadh (Instructions Within, The Operating System, Brooklyn, 2008)
Translation José Pinto
English version Mona Zaki

Publicado Revista Palavra Comum, Galiza, 2016

ESPAÇO NO VAZIO

Tudo tem peso.
O teu é bem conhecido das traseiras
porque a tua pesada sombra não deixa aparecer a estrada, a pintura ou a escrita
postos à janela.
Tens espaço também, muito espaço
no vazio.

O ar é poluído e os caixotes do lixo
e a tua alma também, desde que a trocaste por carbono.
E o teu coração, desde que as artérias colapsaram
e recusaram conceder cidadania
ao sangue vindo do fundo da tua cabeça.

Sem memória, perderias muito peso.
Precisas seguir uma dieta rigorosa
para perderes mais de ti.
Decide-te rapidamente,
porque a gravidade da Terra
não espera muito.
Dica: substitui o fator tempo pelo teu nome
para descobrires como atirar a última lágrima
do teu diário
direta para o cesto do lixo.

Consomes ar basto para dois recém-nascidos
se os gritos fossem iguais,
dado que as moléculas de ar à tua volta
transportam mal o som e a tua garganta
precisa de reparação.

Uma mulher mendiga acima dos cinquenta exibe dignidade num
farrapo cheio de moedas. Reza para que tu e a
mulher bonita que está contigo
sejam em breve abençoados com uma criança,
para encher outra parte do vazio
em troca de uma moeda.

Chegou a hora de aprenderes os passos, não sexuais,
e de mudares as meias mal-cheirosas.
Fato científico: bactérias crescem rapidamente.

Rende-te ao sono,
porque chegou a hora de derreteres e dissolveres
e tomar a forma alienada em que foste servido.
Evapora, condensa
e volta para o teu vazio,
para ocupares o espaço habitual
em ti.

Ashraf Fayadh (Instructions Within, The Operating System, Brooklyn, 2008)
Translation José Pinto

English version Jonathan Wright

Publicado Revista Palavra Comum, Galiza, 2016