[EU XA BAILEI A MUIÑEIRA CON CAMÕES NUNHA ROMARÍA, NO CASTRO DE SANTA TEGRA.]

Eu xa bailei a muiñeira con Camões nunha romaría, no castro de Santa Tegra.
Teño petróglifos tatuados no corpo como mostra do amor que me deixou dentro.
Se eu tivese útero e non testículos, no canto de figuras xeométricas
tería agora un fillo ben loiro e chosco que me diría “mamãe”,
e eu choraría sen descanso e non sería quen de escribir un verso
sen falar dos seus ollos.
Lembro naquela romaría ver a Luso
bebendo sen acougo o sangue de seu pai en cuncas de arxila
co logotipo do Banco Espírito Santo gravado no fondo,
e no torreiro cantaban mociñas en oitavas hendecasílabas
mentres obesos directivos engravatados lles tocaban o cu
e brindaban polos activos tóxicos e a grande cultura portuguesa.
A poucos quilómetros de alí,
obesos directivos engravatados da Nova Caixa Galiza
brindaban polas inxeccións de diñeiro público
e a grande cultura galega,
cun acento lixeiramente parecido e lixeiramente diferente.
Eu xa vin bailar a mazurca a Eça de Queirós e Breogán ben abrazadiños,
xa os vin subir, collidos da man,
os douscentos corenta e dous chanzos da Torre de Hércules,
e bicarse apaixonadamente á luz do faro,
e embaixo un cuarteto de gaitas e un orfeón
tocaban e cantaban a catro voces a Foliada do Santo Amaro.
Eu xa escoitei a Eça, no abrente,
cunha man na fronte e a resaca de sete mares na mirada,
murmurarlle ao ouvido a Breogán:
“desperta do teu sono…”.
A esas horas, o orfeón cantaba a oito voces;
a metade deles a Rianxeira; a outra metade o Miudiño.
Eu xa vin galegos e portugueses de boa familia
persignarse coa mesma moral hipócrita
por baixo das campás tocando a morto,
a morte da cultura, a morte das liberdades, a morte da civilización,
e vin policías portugueses mallando no pobo
coa mesma forza coa que un galego sacha no millo
(ah! esas pequenas cousas que nos unen…),
políticos presuntamente galegos rozando nas cunetas
os restos dunha lingua que lles molesta
como unha mala herba na horta.
Descoñezo se o ritmo co que baten os G’N’R deste lado do Xurés
é máis de Malhao ou de Vira,
-alá no norte son máis de pasodobre de Manolo Escobar-
mais sei que o baile dos nosos pés se fuximos deles
produce exactamente o mesmo son de vencidos.
Onte pasei toda a tarde a procurar en Internet,
e xa estou adestrado para facer cócteis molotov con cedillas
e barricadas con ene-agás,
por se un día eses cabróns nos tentaren roubar
un poeta maldito ou un maldito poema
que fale de nós e de toda a cultura que só nós mesmos
temos o dereito de estragar
ou deixar morrer de inanición.
Teño nos beizos ducias de coplas que nomean Portugal,
e ducias de decilitros no fígado
que nomean o Douro, o Porto, o Ribeiro ou Valdeorras,
mais non me preguntedes…
non lembro -en absoluto- como chegaron a min,
nin as unhas nin as outras.
Dóeme lixeiramente a cabeza,
péchanseme os ollos e ábreseme o corazón
ao escoitarvos esas vogais nasais que me poñen tan tenro
como para desexar, tan só, cantar un fado eterno xunto a vós.
Um peito que canta o fado tem sempre dois corações!
Não sei se Cebreiro era português
e Pascoaes era galego.
Se Rosalía era portuguesa
e Pessoa galego.
Não sei se Manuel María era português
e António Cabral da Galiza.
Talvez Alberto Caeiro fosse sim, galego…
Catalogações destas nem devia haver.
Já partilhamos a existência do El Corte Inglés,
das ilusões que vende e dos seus catálogos
lidos com mais paixão do que qualquer escritor.
Partilhamos os que veem inertes
o país mudar na televisão,
os pais que permanecem quietinhos perante o apocalipse
e as mães que o vão adiando, momento a momento.
Os que matam por um centímetro de terreno,
os hipócritas da voz bem posta
a afirmar que a grandiosa nova obra
virá reforçar a economia local!
Mas não se esqueçam: as sedes estão na capital.
Ou seja, o capital.
Partilhamos um silêncio que
vem do cansaço adensado
sobre as costas que herdamos.
Um brilho da floresta nos olhos
a sobrepor-se ao torpor dos dias,
à absurda vida mecânica.
Prestam-se contas às batatas por apanhar,
ao trigo por secar,
ao feijão por semear…
Aos deuses pendurados em árvores.
Ainda din que non falan as plantas.
Mas não queremos saber da agricultura:
a civilização é desafio maior.
Por ora, uma taça de tinto
e um caldinho verde!
A seguir o Entrudo.
Montalegre.
E Alhariz…
Acordar em Vilar de Santos
é ouvir o primeiro tom
da gaita de foles soar
e o azul e o verde frescos.
Arde a vida para que partilhemos.
E o nosso conhecimento mútuo
é um simples reconhecimento.
De que não constamos em catálogos.
De que antigos anciãos devem ter feito
um acordo intemporal.
Que nos deram o mesmo uivo
frente à opressão
e à comichão que faz
outro político corrupto.
Comichão rimava.
Não sei encontrar palavras
para definir exatamente
o misterioso e simples estar lá.
Mas quanto mais queremos compreender a vida
menos se vive.
Não sei decor as letras do Zeca,
mas o caminho da irmandade
já foi por ele visto, desenhado e pisado.
Certa vez, olharam a nossa cara com espanto
Estais com um ar diferente, airoso.
Acabámos de chegar da Galiza!

Escrito com Carlos da Aira
Lido e performado Cultura Que Une, Portugal, 2016

TEMPOS TENSOS

Tempos tensos para mim,
e dormir é como uma recente paixão adolescente.
Devia ignorar o estado do meu coração
e as reviravoltas da minha mente como água a ferver
para lá do ponto de ebulição.
Sou uma parte do universo com a qual o universo está furioso,
uma parte da terra da qual a terra está totalmente envergonhada,
um humano deplorável contra quem
outros humanos não conseguem manter neutralidade.
Neutralidade: uma ilusão
como todos os encantos de que falam os humanos, ousadamente teóricos.
Verdade é um termo desadequado, tal como Homem,
e o amor esbarra,
mosca miserável
presa numa caixa de vidro.
Liberdade é muito relativa:
afinal vivemos numa prisão esférica
circundada de ozono.
Livre, o nosso fado
é morte certa.
Sou incapaz de rir.
Completamente incapaz até de sorrir.
Incapaz, ao mesmo tempo, de chorar.
Incapaz de agir como um ser humano,
o que não me entristece minimamente
embora doa
ter um corpo coberto de sombra,
caminhar em dois limbos,
depender completamente da tua mente,
ser levado pela tua vontade ao ponto mais longínquo,
teres a tua liberdade encarcerada,
ter outros a decidir matar-te,
sentir a falta dos que te são próximos
sem a possibilidade de te despedires.
Para quê a Despedida
senão para deixar uma impressão triste?
Para quê reunir?
Para quê o amor?
Para quê estar vivo assim
enquanto outros morrem de mágoa
por ti?
Vi o meu pai pela última vez através de vidro grosso
e depois partiu, para sempre.
Por minha causa, digamos.
Digamos que ele não suportou o pensamento
de que eu morreria antes dele.
O meu pai morreu e deixou a morte para que me cerque
sem que isso me assuste o suficiente.
Porque a morte nos assusta de morte?
O meu pai partiu depois de muito tempo
à superfície deste planeta.
Não me despedi como devia
nem chorei por ele como devia
e fui incapaz de lágrimas,
como é hábito em mim, tornando-se piores com o tempo.
Os soldados cercam-me por todas as frentes
em uniformes de cor baça.
Leis e regimes e estátuas rodeiam-me.
A soberania rodeia-me.
A solidão sufoca-me.
Sufocado pela depressão, nervosismo, preocupação.
O remorso, de que sou ainda membro da espécie humana, mata-me.
Não fui capaz de dizer adeus a todos os que amo
e que partiram, ainda que por algum tempo.
Não fui capaz de deixar uma boa impressão de último encontro.
Então resignei-me às rifles da ânsia
niveladas ao meu caminho.
Recusei levantar a mão
e tornei-me incapacitado.
Então fui agrilhoado pela tristeza
que falhou em forçar-me a chorar.
O Conhecimento corrói-me por dentro,
mata todas as minhas possibilidades de sobreviver.
O Conhecimento mata-me lentamente
e é tarde demais para uma cura.

Ashraf Fayadh
Translation José Pinto, 2016
English version The Guardian