CAP FERRET

I
Verde reluzente espreitou. Talvez por medo de estranhos ou de pinheiros bravos. Aconchega a madeira que avançou até à água, vísceras e lugarejos. Os viventes olhos capitalistas habitam os sistemas, lugares, rolas bravas e corvos. Competem sem tréguas com o sítio, como plantas invasoras. A bacia de água, a balbúrdia constante e melodiosa para o firmamento. Casas insinuam-se dos séculos, a vida floresce. O lagarto. A aranha que não aguentou a humidade constritora e esperou o tempo do jantar para se precipitar para a banheira.

II
Não aguentou o início dos pássaros. Fez o mesmo percurso à volta, como quem contém a violência selvática, este homem que varre agora a floresta. A matéria precipita. Porventura sente curiosidade em saber do desejo, excitação a cada metro desta vila, sem pré-aviso, assim. Contudo, às mesmas horas dos primeiros dias, os helicópteros vêm ver que todas as noites, sem engano, a sua companheira – presumo – faz calor por cima do verde, do azul, como a natureza cobiçada, e repete arrête para o cão. Pagam-se vagas de entrega, devagar. Terreno: o poder da lua cor-de-laranja. Cigarras ressoam.

III
Dois pardais voltam à cabana de madeira e comungo com eles. Foram perseguidos por revistas cor de rosa em queda. Para crença, certeza e ingenuidade, há praia. É casa do festival de jazz, com sabor a agosto e aroma leve a mar. Desancorou uma turista, arejou as posses. À direita da porta, sereno, está sentado um velho pescador com estrelas no céu-da-boca e rugas. Iscando a morte num murmurinho cíclico de batalhas inigualáveis, deixa migalhas para o país. Vinda do piano, uma brisa de saudade incrustada em hábito conquista o areal. As férias acabam, cedo ou tarde, e não distingo se é paz, se é passividade.

IV
A brisa torna-se o que conheço. Sei onde e quando a natureza parece querê-la. Feixes rosados e azuis e vermelhos no céu erguido num derradeiro ato de vigília inocente. O sol estende e amplia, com amarelos e laranjas ardentes. Apertou-o de mansinho na mão, o passarinho estava desconfortável. Como será fingirmo-nos mortos e, no momento inesperado, levantarmos voo? Despediram-se, mal o pousou nas folhas. Certa tarde, num movimento rápido, apurado, viu-o voar. Entre nuvens, tão pequeno e já levado pelo vento, para o ar. É decisivo, confiar nas asas. Há sinais de setembro.

ONDE VIVE BLIMUNDO

CONTEMPLADORA: Ouviste?
VIAJANTE: Ouvi o quê?
CONTEMPLADORA: Espera…
VIAJANTE: Espero?
CONTEMPLADORA: Pelo próximo.
VIAJANTE: Próximo?
CONTEMPLADORA: Sim.
VIAJANTE: Pelo próximo quê?
CONTEMPLADORA: Pelo próximo eco.
VIAJANTE: Eco?
CONTEMPLADORA: E-c-o. Eco.
VIAJANTE: Queres que eu espere por um eco?
CONTEMPLADORA: Não é um eco qualquer.
VIAJANTE: Então?
CONTEMPLADORA: É o eco dele.
VIAJANTE: O eco de quem?
CONTEMPLADORA: Espera.
VIAJANTE: Que seca.
CONTEMPLADORA: Só funciona se esperares.
VIAJANTE: Quanto tempo?
CONTEMPLADORA: O que for preciso.
VIAJANTE: E se demorar até amanhã?
CONTEMPLADORA: Esperas.
VIAJANTE: E se for daqui a trinta anos?
CONTEMPLADORA: Esperas.
VIAJANTE: Oh!
CONTEMPLADORA: Shhhh. Quanto menos barulho fizeres…
VIAJANTE: Agora também tenho de me calar?
CONTEMPLADORA: Não é bem calar, mas…
VIAJANTE: Mas nada!
CONTEMPLADORA: AI, QUE O VAIS ESPANTAR.
VIAJANTE: Só estamos aqui os dois.
CONTEMPLADORA: Não estamos só os dois…
VIAJANTE: Não vejo aqui mais ninguém.
CONTEMPLADORA: É que não se sabe dele há muito muito tempo.
VIAJANTE: Estás a inventar.
CONTEMPLADORA: Não me digas que nunca te falaram de Blimundo.
VIAJANTE: Qual Blimundo?
CONTEMPLADORA: O boi mais laaaargo do mundo.
VIAJANTE: E que tem de especial, além de ser “o boi mais laaaargo do mundo”?
CONTEMPLADORA: Brincava com as borboletas que via.
VIAJANTE: Um boi que brincava com borboletas?
CONTEMPLADORA: E levava música dentro dele.
VIAJANTE: Um boi que brincava com borboletas e levava música dentro dele…
CONTEMPLADORA: Ah! Assim, não ouvirás.
VIAJANTE: Assim como?
CONTEMPLADORA: Tens de deixar-te levar.
VIAJANTE: Deixar-me levar?
CONTEMPLADORA: Sim, pela canção que vive dentro.
VIAJANTE: Pela canção? Dentro da minha cabeça!?
CONTEMPLADORA: Sim. Parecida com uma voz…
VIAJANTE: Lá estás tu a inventar outra vez.
CONTEMPLADORA: Uma canção que consegues escutar no silêncio.
VIAJANTE: Mais alguma coisa especial sobre Blimundo?
CONTEMPLADORA: Faz bulir o mundo.
VIAJANTE: Bulir?
CONTEMPLADORA: Sim, movimenta as coisas.
VIAJANTE: Mas o planeta Terra já roda sozinho.
CONTEMPLADORA: Blimundo faz o mundo avançar.
VIAJANTE: Mas o planeta Terra anda à volta do Sol.
CONTEMPLADORA: É um boi que ama a liberdade.
VIAJANTE: Que queres dizer com isso?
CONTEMPLADORA: Fugiu do palácio onde o mantiveram a trabalhar como escravo. Andou às voltas às voltas às voltas no trapiche, dia após dia após dia…
VIAJANTE: E depois?
CONTEMPLADORA: Ele via mulheres usarem roupas mais bonitas.
VIAJANTE: Só isso?
CONTEMPLADORA: Via reis enriquecerem à sua custa, soldados com fardas mais reluzentes e o palácio a INCHAR de luxo.
VIAJANTE: E por isso fugiu?
CONTEMPLADORA: Razões que bastam a quem procura grandes causas.
VIAJANTE: Cansou-se?
CONTEMPLADORA: Cansou-se.
VIAJANTE: Fugiu pra onde?
CONTEMPLADORA: Bem longe!
VIAJANTE: E o rei?
CONTEMPLADORA: O rei foi atrás dele.
VIAJANTE: Como se sabe que é Blimundo e não outro boi?
CONTEMPLADORA: Se for Blimundo, saberás logo que é ele.
VIAJANTE: Porquê?
CONTEMPLADORA: Porque a cada mugido que dá, a terra estremece.
VIAJANTE: Uau…
CONTEMPLADORA: Como estremeceram exércitos que foram atrás dele.
VIAJANTE: Não foi o rei atrás dele?
CONTEMPLADORA: Já viste um rei ter coragem pra lutar?
VIAJANTE: Nunca. Como comanda um rei, se lhe falta coragem?
CONTEMPLADORA: Só uma vez houve em que capturaram Blimundo.
VIAJANTE: Devem ter suado.
CONTEMPLADORA: Atraiçoaram-no.
VIAJANTE: Ele deixou-se atraiçoar?
CONTEMPLADORA: Ordenaram a um rapazinho que fosse a cantar e a tocar violino pelos campos até encontrar o boi.
VIAJANTE: Que estaria a brincar com borboletas.
CONTEMPLADORA: (começa a cantar) Tlim, tlim…
Tlim, tlim…
Tlim, tlim…
Tlim, tlim…
Oh Blimundo
Senhor rei mandam buscar
Pra bem casa com na codezinha
Glim Glim na nha cavaquinho
Clo clop na nha pretem
Glim Glim na nha cavaquinho
Glu glu na nha bli d’agua (termina de cantar)
Guiado pelo eco dos mugidos, mais próximo e MAIS PRÓXIMO, deu-se conta, de repente, o rapaz, que Blimundo o havia posto em cima do seu pescoço.
VIAJANTE: Não foi prudente.
CONTEMPLADORA: Foi apaixonado.
VIAJANTE: Levava música dentro.
CONTEMPLADORA: Pediu ao rapaz que tocasse pertinho do ouvido.
VIAJANTE: E o rapaz encaminhou-os até ao palácio.
CONTEMPLADORA: Enquanto a música em cima do boi soava mais bela e o tocador só pensava num outro segredo.
VIAJANTE: Qual segredo?
CONTEMPLADORA: Blimundo estava apaixonado pela “codêzinha”, a Vaquinha de Praia.
VIAJANTE: Gostaria de saber onde vive Blimundo.
CONTEMPLADORA: Hum…
VIAJANTE: Não me vais dizer que é no silêncio.
CONTEMPLADORA: Temos ouvido ecos longínquos. É preciso prestar atenção. E levar música dentro de si. Uma sensibilidade apurada.
VIAJANTE: Sensibilidade a quê?
CONTEMPLADORA: Ao invisível.
VIAJANTE: Ao invisível?
CONTEMPLADORA: Por baixo da pele.
VIAJANTE: Os músculos?
Os ossos?
CONTEMPLADORA: Posso contar-te o resto da história?
A Vaquinha por quem Blimundo estava apaixonado havia sido adotada pelos reis, pois a rainha não conseguia engravidar. Num dos passeios pelas propriedades reais, ela viu uma bezerra perfeita e logo quis levá-la consigo. Quando chegou à beira do rei, expressou o seu desejo de ficar com a bezerra, como se uma filha sua fosse. Então, o rei pediu a uma fada do palácio que a transformasse numa menina e, da noite para o dia, a Vaquinha de Praia era uma elegante princesa.
VIAJANTE: Blimundo foi ter com a “codêzinha”?
CONTEMPLADORA: O rei havia prometido a Vaquinha em casamento. Levando consigo o tocador de violino, quando chegaram ao palácio, o rei apressou-se a conduzir o boi ao barbeiro, para que se preparasse para o encontro com a amada. No momento em que ia começar a aparar os pelos de Blimundo, depois de o ensaboar, o barbeiro deu-lhe um golpe de navalha no pescoço, que manchou a toalha reluzente. O boi mais largo do mundo começou a dar coices aqui, dar coices ali, dar coices acolá, de tal maneira que o rei nunca mais foi visto.
VIAJANTE: O que terá levado ao ódio do rei? Havia bois para o lugar do fugitivo?
CONTEMPLADORA: Blimundo fugiu e inspirou outros bois a serem livres. A notícia correu o reino à velocidade da luz. Blimundo havia feito florescer uma esperança antiga.
VIAJANTE: Uma ameaça à ordem do rei.
CONTEMPLADORA: Ia jurar que ouvi o eco.
VIAJANTE: Às vezes ouvimos o eco de uma lembrança como se estivesse realmente a acontecer. Especialmente se há vontade de que aconteça. Quando se sente saudades.
(Silêncio) 
VIAJANTE: Se cantarmos no silêncio, Blimundo aproxima-se?
CONTEMPLADORA: Ah, já entendeste?
VIAJANTE: Acho que estou a começar.
E se pintarmos o crepúsculo sobre rochas e vales?
CONTEMPLADORA: Funciona, se tiveres os olhos fechados.
VIAJANTE: Como é que pinto de olhos fechados?
CONTEMPLADORA: Do mesmo modo que se canta no silêncio.
VIAJANTE: Não te esqueças de pintar borboletas a voar pelos vales das ilhas.
CONTEMPLADORA: Um detalhe de extrema importância.
VIAJANTE: Vou fechar os olhos.
CONTEMPLADORA: Tenta.
VIAJANTE: E se aparecerem rãs a saltar de um lado pro outro?
CONTEMPLADORA: Só saberás depois de tentar.
VIAJANTE: E se aparecerem dinossauros gigantes?
CONTEMPLADORA: Tens de tentar.
VIAJANTE: E se aparecerem monstros selvagens?

(Silêncio)

VIAJANTE: Vou fechar os olhos.
CONTEMPLADORA: Que corajoso.

(silêncio durante doze segundos)

VIAJANTE: Ouves o eco?

Dramaturgia e texto José Pinto, a partir do conto de Blimundo, da tradição oral cabo-verdiana
Interpretação Cátia Terrinca e Vicente Wallenstein
Sonoplastia Diogo Rodrigues

Prosa poética + texto para teatro + sessão radiofónica publicados Revista Virada, EUA e Portugal, 2020

VENCERIAM UM FOGO COM FOGO, UM INVISÍVEL COM INVISÍVEL

O que é distanciamento social?

Prometeram beijos paternalistas mas o invisível estalou. Não há tempo para makeup, no precipício. É ao natural. Uns líderes encetavam fugas heroicas para o mistério, outros profetizavam desgraça, da qual, viria a descobrir-se, afinal não haviam saído. Atravessaria a rua, onde muitas vezes viu os dois submersos um no outro, entre o último raiar do sol, a primeira queda para a noite e a luz amarelada do candeeiro da rua onde ela mora. Alheios, o rapaz costumava conversar com ela e os dois sorriam nos olhos um do outro. Ela não descia o degrau da porta de casa para o passeio mas a dada altura achou-os abraçados. Atravessava a rua pelo passeio oposto, com passos rápidos e olhos no caminho. O medo é um regime. Depende do que se acha que se tem a perder. Ontem, depois de transes sucessivos para pagar, decretado o isolamento social, atravessa a rua de todos os dias pelo passeio oposto, com passos rápidos e, pelo canto do olho, vê que ele e ela estão à porta de casa dela, ela em cima do degrau, os dois submersos em conversas ondulantes e risos cósmicos, alheios.

21 de março de 2020

Cabo Verde temporariamente fechado

esticar a rocha
à calma lonjura
de uma raiz
de onde vertem
sóis em flor
desvanecidos no tempo
que virá feito árvore

19 de março de 2020

No coração duma ficção

Avanço pelas ruas de Europa. Aqui, o desejo é realizado num estalar de néons e só tem de seguir os hologramas que são projetados dentro da íris. Olhos abundam no meio do ar e cheira a nostalgia sebastiana, anunciando o fim dos pássaros no peito: são eles que guardam os museus e trocam diariamente de turno com os cães. A calçada esventrada pro sol contido no seu pico vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas, na cidade onde a noite não há. Limpam os passeios e as estradas, esterilizam corações, como sorrisos plastificados por máquinas espectrais alimentadas a emoções. A expressão é sinal de cosmos derramado no brilho metálico dos pequenos jatos intimistas. Também há jatos de grande porte, em particular para os fora-de-era – explicara-me um funcionário público que outrora lhes chamavam “atrasados para o trabalho”. O funcionário explicou-me aquilo através de uma aplicação exclusiva para residentes e visitantes de Europa. Ninguém verbaliza com ninguém e tudo se passa entre smartphones. Introduziram a lei do não diálogo, após tentativa de revolução de uma minoria que se encontrava em segredo debaixo da cidade, tirava as máscaras e conversava sobre ética e flores. A aplicação deverá ser descarregada depois de receber o visto de visita e obrigatoriamente antes de passar a fronteira para a cidade. Nada é secreto, tudo é visível na memória mantida em dezenas de elefantes especializados em receber e guardar informação, numa colaboração nunca antes vista entre humanos e animais. Chegado à fronteira para entrar em Europa, deram-me um afago no cabelo e uma máscara de cavalo preto, que de imediato coloquei. Ninguém tira as máscaras. Justificam a lei, dizendo que é para resguardar o eu-universal e em troca de mensagens com os residentes no chat, percebi que uma vasta maioria dá a entender que a empatia é o inimigo número um da tecnocracia. Os cheiros fortes, antigamente característicos dos grandes mercados e bazares de Marrocos e da Turquia, são produzidos em laboratórios construídos para o efeito e libertados no ar de trinta em trinta minutos. Há oito horas que percorro as ruelas de Europa e a fadiga começa a entranhar-se no nariz, até que observo um holograma de vários metros que me recorda a primeira vez que senti vida nas veias e nas artérias. Percorro semiconsciente o caminho até à porta por baixo da jovem que dança e olha pros meus olhos, pela fresta da máscara. Bato à porta e pedem-me que tire a máscara e mostre o meu eu-universal. Peço para entrar. Em troca, pedem empatia: a única forma de pagamento.

6 de fevereiro de 2020, experimentação em oficina orientada por Luís Carmelo
Lido THIS IS POESÍA__at home, EUA, Espanha e México, 2020 | Full Poetry, Cabo Verde, 2020

Morna para um mundo

De costas suadas para o Montara, lavava a roupa numa piscina natural. Voltou-se e perguntou à montanha se NÃO ERA SUPOSTO VIGIAR ETERNAMENTE HOMENULHERES, PARA QUE A TRAGÉDIA NÃO SE REPITA. Ah ah ah, riu um homem mascarado de Platão, enquanto se aproximava delas. Se o vulcão entrar em erupção, kel primer koza k tá bai é sê nariz, disse uma companheira. Escutava Platão com o assombro de quem assiste à telenovela: o Benfica ganhou quatro zero, dizia ele, um emproado, só porque o seu clube favorito havia ganho o campeonato. Tal coisa, respondeu-lhe, acrescentando que descendentes de Atlântida importam-se com sabedom, trabork e paciênce. Daí a riquezância, rematou. Suspendeu a respiração e concluiu, observando a cidade, que homenulheres se haviam tornado indolgent, orgulhoud e fratricide. E quanto mais ardia, mais o Montara a transformava em rocha e nham! Platão Platão, gritou pra ele, vem XXXXXXXXXXXX.

19 de dezembro de 2019, experimentação em oficina orientada por Luís Carmelo

Publicado União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), Portugal, 2020

[OCEANO A RUGIR DESSA AURORA DE RESSURGIR]

oceano a rugir dessa aurora de ressurgir
por glória imortal temos sol
desponta sobre ridente sempre em vista
uma verdade não se ofusca dos raios do mar
entre brumas vêm livres contra canhões
dos teus avós que comum agitação
dá vigor à luz viva do teu céu da memória
um eco de almas perfeita união
beijos sobre terra viva do teu céu
vêm fazer de heróis de uma memória que nos guarda
com quanto desafogo por vós ó pátria
beija um solo sobre armas da memória
raios dessa aurora forte
oceano a rugir d’amor contra injúrias
vencer o esplendor de uma sorte
agitação dá vigor às almas
um sol há de guiar-te à vitória porvir
seja afronta de valorosos venturosos
eis ó rei um oceano sobre o mar
observa terra da memória sobre armas
contra canhões sente-se a voz

Performado Spoken Word Ribeira Grande, Cabo Verde, 2019
Publicado Fanzine PONTE, Brasil, Cabo Verde e Portugal, 2020

INSUFICIÊNCIA CARDÍACA

Os teus clamores à rua?
Ah faúlhas de sonhos que a
manhã seguinte desfez.
Porque a rua não responde.
E se acaso o faz, o máximo é um
sorriso que não sabes bem decifrar.
Outras vezes há que se
ri descontroladamente.
Do que tens a dizer e
não te ensinaram como.
Nem a dizer nem a ladrar.
Não há palavras na
língua das madrugadas
de volta a casa, ao quarto.
Tiras qualquer coisa do
frigorífico que vais comer com
bolachas, dás a tua mija e
Fogo, o tempo passa tão rápido.
Hora de deitar.

ENSAIO

O dia
por fim
da resposta
ponto
Inquebrável
ponto
Definitiva
ponto

Perseguida
com a pleura
em rebentamento
nos interstícios
da (in)consciência
e da mentira
entranhada nas verdades,
por fim sabes
ponto

Sabes?
O poço é fundo
não tem fundo,
como a raiz da ideia daninha.

Cuidado
com as unhas
que afincas
nas paredes,
podem partir
descolar
e permanecer
na pedra
como aos que
já passaram,
ficar para
visitas guiadas
aos que passarão.

Deixa,
cai.
Corre corre corre!
Tanta luz cegar-te-ia
ponto

Performado O Interior é como o Exterior das Coisas, Portugal, 2015

Poemas publicados Revista DiVersos 27, Portugal, 2018

O TEMPO DA TERRA

Fumaste o teu primeiro charro comigo, 
eu falava-te das propriedades relaxantes da matéria. 
Aí habitava a matéria-prima de tudo, onde
a noite desceu sobre a floresta sobre nós, 
duas crianças entre escarpas áridas a verter, 
a calcar a terra a velar o ruído primordial. 
Perguntaste-me se os grilos não se cansam de
cantar toda a noite. Rimos a bom som e descobrimos que
o céu tem estado escondido no solo. 
Como as redes de pesca presas ao submundo marítimo. 
Fomos juntos. 

Sem eletricidade somos nós a noite. 
Ouvimos a Mayra Andrade ao longe, 
a lua cheia por cima do mundo, 
eu disse-te que as pessoas que pagaram o
bilhete ficaram de costas para o clarão lunar, 
chamaste-me romântico e sorriste. 
Cansámo-nos e dançámos tolos. 
Achámo-nos entre poemas entre palavras entre signos. 
Diz-me: é previsível o trajeto de uma pedra rolante? 
E de duas depois de colidir? 
A partir deste verso falarei enfim de amor. 

Fiquei preso ao álbum das polaroides. A corda aperta. 
Demos uma festa! Como se fosse ficar mais perto de amar
como se amar seja deixares que te olhem nos olhos sem tempo. 
Sem falar. Sem mexer um músculo. 
Ouvir a respiração apenas. Inquieta-te? 
Então foge, porque a seguir é ilusão. 
Demasiado preguiçoso. 
Ou medo demasiado de não acertar. 
Só sei não acertar e faço-o com precisão. 
Vivo para me vingar desde que cheguei, 
mas acerto em todos menos no alvo. 

O meu coração secou numa festa, em que
o mundo me convidou para dançar, 
batida a batida a náusea destilou febre e
vomitei sem fazer barulho. Na manhã seguinte
pus os óculos de sol novos: renasci. 
Fiz oitenta e nove anos há duas semanas. 
Nós durámos algumas horas. Lembras-te? 
Liguei-te no concerto dos Explosions in the sky. 
Quis que ouvisses a ‘your hand in mine’. 
Disseste-me que havia demasiada interferência do mundo e
não percebeste nada. Esperaste que eu chegasse
a casa no fundo da madrugada e amanhecemos. 

Agora vivo para sobreviver. 
A taxa de sobrevivência cai. 
Decai até zero. 
Publicar fotografias com crianças africanas para
aliviar a neurose de que sou o responsável pelo
impercetível processo de sedimentação ou
entupimento da vida toda? 
Ir ao grogue a vinte escudos na vendedora da Praça? 
Vejo-os todos os dias a falar para
varandas sem gente dentro. 
A senhora deve dormir de dia. 

Eu? Eu falo para mim sem eu estar. 
Tu também, mas concordámos não falar disso. 
Amanhã esqueceremos. Estás aí? Atrás da porta? 
Vem. O mundo é enorme. E o teu lugar está garantido porque
quando morreres o tempo vai parar. Por ti. Só por ti. 
Quando mais precisaram de mim não estive por falta de habilidade. 
Achava que sim, mas tive uma
arritmia a um milésimo de segundo de abrir o coração. 
Há muito barulho na cave. E sempre o esforço para sair. 
Partir? Ficar? Se fossem embora eu ficaria radiante. 
E cheio de medo. Sou sempre estrangeiro. 
‘É melhor ser esbofeteado com a verdade do que
ser beijado com uma mentira’, diz um provérbio russo. 
Não me falaste dele nem do que significa. 
Continuas sem falar e convenço-me de que me resta a redenção. 

Não compres um espelho para a casa ou
verás como te coseram a boca. E que nada se aproxime de ti, 
debaixo da linha aguda das manhãs. Continuarão ao teu lado
por serem demasiado cuidadosos
por ilusão
por fatalidade. 
A desilusão? Perder nuvens pelo caminho, 
ver o sol uma vez por festa, 
o traço fino a deslizar do céu ao nada, 
as paredes concêntricas de que foges. 
Que não te reste fechar a persiana sem fresta. 
Precisamos da ilusão a três centímetros de cortar a meta. 

Dizer a verdade é apocalítico. 
Há mundo novo a suceder? 
‘Mundo novo’ é Mindelo, disse um acidental mindelense. 
Vem para cá. Tens o estômago farto da verdade nas solas dos europeus? 
Como a pedra no sapato, a ferida de canela, a caspa nos colarinhos de Bruxelas. ‘Transmitir os
valores da Europa ao mundo’! 
Como será receber o mundo em território europeu? 
Devia ter tirado a fotografia com os embaixadores. 
Fiquei sem provas sem cara. Ainda me aceitam? 
A partir de hoje publico todos os dias na minha
página de facebook para que acreditem. 
Ei, não me viste na televisão este natal? 

É isso: pensar e construir uma história, 
treinar o discurso até parecer nosso. 
Que mais importa? 
Escolher as palavras certas e acreditar nelas como
os que vão à igreja aos domingos. 
É preciso acentuar as que dão prestígio! 
Terei então confiança para entrar na conversa. 
Uma palavra em falso e caio no vazio, por isso seduzo. 
E se não atingir o objetivo digo o que vier à cabeça
como se fosse a última grande verdade de
um tempo sem a medida exata da constância. 
Depois é só apontar aos pontos fracos. 
Estar pronto para premir o gatilho. 
O importante é controlar! 
Sou demasiado benévolo para o mundo. 
As pessoas são as verdadeiras culpadas por
todo o mal que causei e que possa vir a causar. 
Vítima simples que não sabe
de que alambique verteu este sangue. 

Ao escorrer na cara o sangue faz cócegas. 
E às vezes só nos apercebemos quando tocamos. 
Pode ser a ferida viva. 
Pode ser o ressalto do crime. 
Podes ser tu a confundires-te comigo.

Performado Spoken Word Mindelo, Cabo Verde, 2017
Publicado Enfermaria 6, Portugal, 2017

TEMA PARA JÓVENES ENAMORADOS (LOS BELKINGS)

Eu acredito no Homem.
E nas suas variações genéticas por vir.
E na Conceição Lima, uma senhora com óculos de sol que
exibe a cara na grelha lateral, com quem
tenho cinco amigos em comum.
E no Emprego Porto.
Quem acredita, vai.
Cedo.
‘Vista às 3:18’

Publicado Revista Palavra Comum, Espanha, 2017

IMPRESSÕES

V
Hoje, enquanto esperava sentado que o quiosque abrisse para comprar tabaco, vi uma senhora, que suponho ser escritora – só podia ser escritora, senti-o para lá dos seus olhos, consumidos, esquecidos, longínquos. Fixou, obcecada, encostou a bicicleta ao poste que estava à minha frente, abandonou-se, possuída por uma despersonalização incendiada, até uma parede a deter, onde ficou. Absorta do entorno, começou a tirar notas num pequeno caderno, a seguir noutro, sem que eu saiba precisar quantos mais blocos existiriam na sua carteira. Ia jurar que vi a energia a escorrer-lhe pelos dedos… E me atingiu, numa partilha jamais querida, jamais verbal. Respondi-lhe, sem nunca ter falado, Amiga [não lhe sabendo o nome], há em tudo isto uma só nota a subtrair. Nas rebentações do tempo a que chamamos e vemos como realidade há somente erupções do ser em sucessão. O que resta de tudo na vala da memória coletiva são as impressões da qualidade desse suceder, cujo diagrama – assemelhando-se ao de Wiggers – compreende movimentos de expansão e fluxos de entropia. Há tanto ar num genuíno ato de gentileza, como é poluente, por exemplo, ruminar a vida alheia. Mas amiga, há num ato de espontaneidade o que se pode observar num craveiro a germinar. Há também de imperfeito no que é puro. E nessa incompletude, caminhamos para o outro. Chamados à humanidade, como são chamadas as plantas amigáveis a sustentar a vida. Como a água da bacia de Arcachon a ser atraída para o oceano, tornando-se resiliente, plena. Deixemos o orgulho e a vaidade em sermos a luz intermitente de um poste solitário numa rua sombria. Querer compreender a vida não permite viver. Que utilidade terá, ademais, questionar? E escrever?

Publicado Revista Zunái, Brasil, 2016